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Mosaico de Docência – Dr. Prof. Daniel Maia – Drogas devem ser reprimidas e não liberadas

Drogas devem ser reprimidas e não liberadas.

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Daniel Maia
Professor Doutor de Direito Penal da UFC
profdanielmaiaufc@gmail.com

O tráfico ilícito de drogas é sem dúvida o grande fomentador da criminalidade. O que se debate é como o Estado deve enfrentar esse problema que assola não apenas as grandes capitais brasileiras, mas também os interiores, tomados pelas facções criminosas.

Para alguns, como o Ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, o enfrentamento da polícia não é eficaz, devendo o Estado, na sua opinião, adotar políticas que caminhem no sentido da descriminação do uso e comércio de algumas drogas, a exemplo da maconha. Essas políticas liberais enfraqueceriam o comércio ilegal e diminuiriam o poder financeiro das facções, possibilitando ao Estado um certo controle da comercialização dessas substâncias, tal como ocorre em alguns países europeus como a Holanda. Isso, apesar de simpático para alguns, é um erro de política criminal.

Em primeiro lugar pelo fato de que não se pode comparar países como a Holanda, os quais  possuem elevadíssimos índices de desenvolvimento humano e um serviço de saúde pública exemplar, com o Brasil, em que as pessoas morrem nos corredores dos hospitais por falta de leitos para tratar as mais simples doenças, quem dirá para um tratamento sério e eficaz de dependentes químicos, os quais precisam de uma estrutura multidisciplinar de profissionais para se livrarem dos vícios. Em segundo lugar, a política liberal de descriminalização do uso de drogas ilícitas é equivocada, pois a droga se espalha de maneira generalizada na sociedade é pelos usuários, muito mais até do que pelos próprios traficantes. Em regra, o primeiro contato que um jovem tem com substâncias ilícitas é por meio de alguém que ele conhece, uma namorada, um amigo, um conhecido que usa e oferece o compartilhamento em uma festa, uma viagem, na escola, na faculdade ou em algum encontro social.  Somente depois de conhecer e experimentar a substância ilícita oferecida por um usuário conhecido é que a pessoa, desesperada para alimentar o vício que passou a devorá-la é que procura um traficante em uma boca de fumo ou nas famosas áreas denominadas de Cracolândia – as quais até hoje não entendo por qual motivo não tem um policiamento ostensivo pelo menos para combater a venda de drogas ali.

Liberar o uso e a comercialização da maconha, substância que é a porta de entrada para drogas mais fortes e de efeitos mais danosos, ao invés de enfraquecer o tráfico ilícito de drogas irá produzir uma geração inteira de dependentes químicos que acabarão procurando o tráfico ilegal de drogas de todo jeito para adquirir drogas mais pesadas, como o Crack ou a Cocaína, quando aquelas que estiverem liberadas não surtirem mais efeito. Além disso, a descriminalização de qualquer tipo de droga teria o simbolismo de incentivar e encorajar o seu consumo, ou seja, uma política liberal de descriminalização do uso e comércio de drogas somente beneficia os produtores e traficantes de tais substâncias.

E o pior, junto com a explosão no número de usuário que a descriminalização do uso e comércio de alguns entorpecentes traria, também ocorreria um grave impacto ao serviço de saúde pública, o qual no Brasil já é absolutamente precário, haja vista o colapso na rede de saúde uruguaia depois que aquele país liberou o uso da maconha.

Defender que descriminalizar o uso e o comércio de algumas drogas ilícitas diminuiria o poder do trafico é um grave erro que se o Brasil cometer várias gerações pagarão o alto preço de se ter uma sociedade dependente e que ficará mais ainda à mercê das organizações criminosas que controlam o tráfico ilícito de drogas.  Por tudo isso o uso e o comércio de drogas ilícitas devem ser reprimidos e não liberados.

Mosaico de Docência – Prof. Francisco Pablo Huascar Aragão Pinheiro – O Diálogo Como Motor do Processo Educativo

O Diálogo Como Motor do Processo Educativo

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Francisco Pablo Huascar Aragão Pinheiro
Professor do Curso de Psicologia da UFC – Campus de Sobral

Gostaria de expor uma ideia que considero central para a construção do processo educativo: o diálogo, noção oriunda da obra de Paulo Freire (1980). Freire ensina que a ação pedagógica revolucionária é, fundamentalmente, dialógica. A partir deste horizonte, leva-se em consideração a historicidade e a incompletude da condição humana, ao mesmo tempo em que, de forma esperançosa, aponta para um futuro no qual a superação da imobilidade é colocada como possível. Dentro dessa perspectiva, o diálogo pode ser caracterizado como:

[...] uma relação horizontal de A com B. Nasce de uma matriz crítica e gera criticidade (Jaspers). Nutre-se do amor, da humildade, da esperança, da fé, da confiança. Por isso só o diálogo comunica. E quando os dois pólos do diálogo se ligam assim, com amor, com esperança, com fé um no outro, se fazem críticos na busca de algo. Instala-se, então, uma relação de simpatia entre ambos. Só aí há comunicação (FREIRE, 1979, p. 107).

Conforme exposto na definição acima, algumas características perpassam e dão as condições para o estabelecimento do diálogo: o amor, a humildade e a fé nos homens. O amor, ato de valentia e não de manipulação, faz-se presente a partir do compromisso com a libertação. A humildade é pré-requisito que permite equiparação aos participantes na capacidade de criar e de recriar o mundo pronunciado; é exigência sem a qual não se viabiliza o encontro. A fé, longe de se fazer ingênua, antecede o diálogo e reflete a crença na possibilidade dos homens de se recriarem. Como conseqüência dessas características é estabelecida a confiança entre aqueles que dialogam, mantida por meio da coerência entre palavras e atos.

Freire ensina ainda que o diálogo une, indissociavelmente, reflexão e ação. Sem a ação tem-se uma verborragia frívola. Ao abster da reflexão, cai-se num ativismo irrefletido. Estas duas possibilidades, verborragia frívola e  ativismo irrefletido, barram a elaboração da palavra que se faz práxis. Por outro lado, quando se toma o diálogo como exigência existencial singular à condição humana, este não pode se dar como mera troca de idéias, embate polêmico ou forma de conquista do outro, mas como ferramenta de pronúncia do mundo e de sua transformação.

No entanto, o diálogo não se trata de uma simples conversa onde cada um dá sua opinião sobre um assunto. O dialogismo intencionado exige uma postura diferenciada de valorização do saber e da experiência de vida dos sujeitos com quem se dialoga. Nesse sentido, o que se busca é facilitar a conversa, mais que conduzir seus rumos. Busca-se contribuir para o cultivo de um espaço de respeito à fala de cada um, compreendendo que o conhecimento é construção coletiva.

Esta postura implica numa abertura para a alteridade, um acolhimento da diferença, ao invés de rebatê-la ou negá-la. Ao mesmo tempo, se afirma uma necessidade de ação, tendo em vista que não se deve ficar limitado à apreensão das contradições do mundo, mas deve proceder a sua transformação. Buscando ir além da discussão, propondo ações práticas e coletivas que concorram para um avanço no tocante à construção de alternativas aos problemas reconhecidos, ações que também são desenvolvidas dentro de uma perspectiva dialógica.

Considero, ainda, que a postura dialógica aqui perseguida exige uma escuta atenta e aberta para as diferenças que se insinuam nos encontros. No diálogo, as identidades dos envolvidos são postas em cheque quando há espaço para o acolhimento das diferenças e dos estranhamentos que o encontro suscita. Discutindo, apontam-se novas formas de falar dos velhos problemas.

Aquele que dialoga também se depara com alguns estranhamentos que dizem respeito à posição que se ocupa. Por um lado, não se vai ao diálogo de mãos vazias, posto que se vai a ele com os próprios saberes e desejos de transformação. Por outro lado, ao tornar-se disponível para o diálogo, é preciso lidar zonas de ignorância e deixar em suspenso expectativas quanto aos rumos do debate. Nesse contexto, os estranhamentos suscitados pela prática do diálogo são compartilhados e possibilitam novas formas de ler e de se posicionar diante de problemas que são construídos conjuntamente.

É preciso dizer, ainda, que com o diálogo não se espera o estabelecimento de uma simetria dos participantes entre si. Inúmeras relações de força perpassam esse encontro, mas ganham espaço para se fazerem presentes e serem discutidas. Também não compreendemos que as discussões propiciadas se orientem rumo a uma verdade transcendente.

O diálogo também não se resume a um meio de encontrar a solução para os problemas coletivos. No diálogo que desejamos o que se busca é a exploração dos conflitos e do dissenso suscitado no encontro entre heterogêneos. A busca pelo consenso aponta um risco grave e que passa muitas vezes disfarçadamente sob os ideais progressistas e humanitários. Sem dar-se conta, é possível interromper o movimento circular e vacilante da política com o intuito de fazer valer uma comunhão apaziguadora para dar conta de um conflito, e perde-se a chance de aproveitar o que ele traria de intempestivo.

O diálogo, portanto, se coloca como horizonte de um prática educativa emancipadora e que busca superação das desigualdades.

Referências

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. São Paulo: Cortez e Moraes, 1979.

______. Conscientização: teoria e prática da libertação. Uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. São Paulo: Cortez e Moraes, 1980.

Mosaico de Docência – Prof. Francisco Pablo Huascar Aragão Pinheiro – O TRABALHO DOCENTE COMO PROBLEMA

O Trabalho Docente Como um Problema

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Francisco Pablo Huascar Aragão Pinheiro
Professor do Curso de Psicologia da UFC – Campus de Sobral

O objeto de trabalho é aquilo em torno do qual se age de forma coordenada, por meio de instrumentos simbólicos ou materiais, a fim de promover uma transformação, visando a um resultado previamente concebido (MARX, 1982). Diante dessa definição, cabe a pergunta: qual o objeto de trabalho do professor(a)? Ao colocar o trabalho docente como questão, o intuito da discussão aqui empreendida é precisar sobre quem ou o que o professor exerce sua ação a fim de atingir um objetivo específico. Conforme Silva (2009), tal determinação é primordial para o trabalho docente, a fim de que a atuação profissional dos educadores não seja fetichizada, de modo que não se desconsiderem os professores como inseridos na divisão social e técnica do trabalho. A autora afirma:

“De fato, o trabalho docente tem sua especificidade, mas, como qualquer outro, é uma atividade direcionada a um fim e este é a formação humana […] Como um trabalho, a docência está inserida em um processo de trabalho como qualquer outro e, por isso, não pode prescindir de um objeto de trabalho; de meios ou instrumentos para executá-lo; e da própria atividade com um fim determinado. O resultado desse processo é um produto. Assim, a docência é o próprio trabalho que o professor realiza e é nessa atividade que ele empenha sua força de trabalho, constituindo-se num trabalhador”. (SILVA, 2009, p. 74-75).

Depreende-se das afirmações de Silva (2009) que o estudante é o objeto de trabalho do professor e o fim que se busca é sua formação. Reforça-se este argumento com a afirmação de Paro (1986, p. 141 apud HYPOLITO, 1991, p. 16) para quem o aluno é o

“[…] verdadeiro ‘objeto de trabalho’ do processo produtivo escolar, já que ele se constitui na própria realidade sobre a qual se aplica o trabalho humano, com vistas à realização do fim educativo. Isto quer dizer que, a exemplo do que sucede com a matéria-prima no âmbito da produção material, o aluno não sai do processo educativo como era quando aí entrou”.

Em outro trabalho, Paro (1993) ressalva que há diferenças entre o objeto de trabalho considerado na produção material e aquele que é alvo do trabalho pedagógico. A resistência passiva do objeto de trabalho que ocorre na produção material não se aplica ao aluno. Este último resiste ativamente à ação em função de sua condição humana, portanto histórica. Nesse sentido, o estudante é também produtor e não somente alvo de uma ação, ou mesmo mero consumidor da aula que o professor lhe provê. Acrescente-se que

“[…] no processo material de produção, as modificações imprimidas no objeto de trabalho são de natureza material enquanto que a transformação que se dá no processo pedagógico diz respeito à personalidade viva do educando, pela apropriação de conhecimentos, atitudes, valores, habilidades, técnicas etc” (PARO, 1993, p. 105-106).

Ainda considerando a delimitação do objeto de trabalho do docente, é relevante a discussão levantada por Clot (2010). O psicólogo francês ressalta a dificuldade de, em contraponto com a indústria, definir o objeto de trabalho no setor de serviços, no qual pode se inserir a atuação dos professores:

“Com o desenvolvimento dos serviços em que o “objeto” do trabalho – palavra que, praticamente, deve ser escrita entre aspas para esse tipo de funções – é, cada vez mais, a vida do outro, as metas a atingir, sendo os meios para alcançá-las muito mais controvertidos por natureza e, fundamentalmente, discutíveis. O trabalho industrial podia ainda tornar crível a ilusão taylorista segundo a qual é possível separar o trabalho e o pensamento. Mas o trabalho no setor de serviços ainda complica muito as tentativas de separação entre as operações de execução e o sentido da ação. O próprio trabalho impõe uma responsabilidade renovada quanto ao “objeto” e, por isso, a definição das tarefas é influenciada, mais do que em outras circunstâncias, por avaliações conflitantes […] [No setor de serviços] as técnicas são as do uso de si e dos outros, em vez da coisa física. Nos serviços, tudo parece, portanto, complicar o emprego da palavra ofício e, em particular, a “mistura dos gêneros”, incentivada por esse trabalho, entre vida profissional e vida pessoal” (CLOT, 2010, p. 281-282).

Tais considerações parecem se adequar perfeitamente ao trabalho docente. Para o professor, em relação aos seus instrumentos materiais, toda sorte de objetos utilizados na interação com os alunos pode ser elencada: lousa, pincéis, livros, dentre outros. Dentre os instrumentos simbólicos estão as estratégias didáticas construídas a partir de sua formação, da troca de experiências com os colegas e também influenciadas por suas vivências fora da escola. As posturas assumidas e decisões tomadas para a condução da turma são ferramentas essenciais para atuar sobre seu objeto de trabalho, de modo que o “uso de si” referido acima é proeminente.

Some-se a isso que o resultado da ação do docente diz respeito a uma meta a atingir na vida de outra pessoa, mas uma vez concordando com o que foi apresentado por Clot na citação alhures. Espera-se que, ao final de um período letivo, o estudante tenha adquirido conteúdos predeterminados ou assuma posturas e comportamentos desejáveis.

A separação entre concepção e execução também não se sustenta no trabalho docente. O professor é, ainda, senhor de sua ação em sala de aula. O docente mantém autonomia para determinar metodologias e conteúdos (BASSO, 1998). Em contrapartida à sua autonomia, o professor torna-se, como dito anteriormente, ele próprio, instrumento de ação sobre seu objeto de trabalho, donde suas experiências pessoais, assim como suas pré-ocupações, conforme a terminologia aqui adotada, acabam por ser uma fonte infindável de ferramentas para a ação em sala.

É mister sinalizar que tomar o estudante como objeto de trabalho não significa, necessariamente, objetifica-lo e, por conseguinte, alijá-lo de sua condição de sujeito. Tal esclarecimento é relevante tendo em vista a confusão semântica que o uso de tal terminologia pode causar.

REFERÊNCIAS

BASSO, I. S. Significado e sentido do trabalho docente. Caderno CEDES, Campinas, v. 19, n. 44, p. 19-32, abr. 1998.

CLOT, Y. Trabalho e poder de agir. Belo Horizonte: Fabrefactum, 2010.

HYPOLITO, Á. M. Processo de trabalho na escola: algumas categorias para análise. Teoria & Educação, Porto Alegre n. 4, p.41-61, 1991.

MARX, Karl. O Capital (crítica da economia política). Livro 1: o processo de produção do capital. São Paulo: Difel, 1982.

PARO,  Vitor  Henrique.  Administração  Escolar:  uma  introdução  crítica.  São  Paulo: Cortez/Autores Associados, 1986.

PARO, V. H. A natureza do trabalho pedagógico. Revista da Faculdade de Educação, v. 19, n. 1, p. 103-109, jan/jun. 1993.

SILVA, Maria Emília Pereira da. A metamorfose do trabalho docente no ensino superior: o impasse nas licenciaturas. 2009. 181 f. Tese (Doutorado em Políticas Públicas e Formação Humana) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2009.

Mosaico de Docência – Dr. Prof. Daniel Maia – PCC, CV e agora GDE, o que falta surgir para o Estado reagir?

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Daniel Maia
Professor Doutor de Direito Penal da Universidade Federal do Ceará – UFC.
profdanielmaiaufc@gmail.com

 

 

 

PCC, CV e agora GDE, o que falta surgir para o Estado reagir?

Já não é mais novidade que as facções como o Primeiro Comando da Capital – PCC, Comando Vermelho – CV e a mais nova Guardiões do Estado – GDE tomaram conta não somente da periferia de Fortaleza, mas de todo o Estado, estabelecendo em vários bairros de diversas cidades normas de convivência, tribunais de exceção para o julgamento daqueles que infringem as regras impostas pelo crime organizado, toque de recolher para os moradores e até restrições de entrada no bairro para quem estiver de capacetes ou com os vidros dos carros fechados, sendo a polícia desafiada diariamente com pichações nas quais se lêem frases como “Aqui a polícia não entra!”, divulgadas frequentemente em redes sociais e em diversas matérias jornalísticas.

Essa realidade tem se tornado comum e parece estar tomando ares de normalidade, quando, na verdade, não é. Entretanto, o que me assusta e indigna é a absoluta falta de interesse estatal em enfrentar, de maneira eficiente, essas facções. Não é possível que percamos a capacidade de nos indignar com a inércia do Estado em combater essa criminalidade baseada no trafico de drogas, o qual corrói os jovens de famílias de todas as classes sociais.

Chega a ser emblemático e triste o domínio dessas facções nos presídios cearenses, os quais, mais que escritórios do crime, estão a cada dia se tornando condomínios das organizações criminosas, as quais gravam vídeos que são postados na internet fazendo todo tipo de transgressão disciplinar que um detento possa imaginar. Desde festas regadas a bebidas alcoólicas e forró, as quais são decoradas com cartazes e faixas que orgulhosamente ostentam as siglas de suas facções, até o uso generalizado de celulares e computadores, os quais além de servirem para postar as fotos dessas verdadeiras farras, são a principal ferramenta para o funcionamento do crime organizado, o qual de dentro dos presídios ordena crimes e coordena seus marginais do lado de fora. E o Estado faz vista grossa, não tomando absolutamente nenhuma providência eficaz contra isso. Por quê? Tecnologia a um baixo custo já existe faz tempo para possibilitar esse bloqueio. Aliás, não vejo nenhuma autoridade explicando por qual motivo não se bloqueiam os celulares dos presos no Ceará. Impedir a comunicação dos presos com os criminosos que estão soltos é o mínimo que deveria ser feito, mas infelizmente nem isso acontece.

É preciso que se diga que o Estado pode continuar contratando milhares e milhares de Policiais Militares, que a violência não diminuirá, pois esta arraigada dentro do próprio sistema prisional. O irônico disso tudo é que era para ser mais fácil controlar o crime dentro das instalações do Estado do que nas ruas, mas isso não ocorre simplesmente por falta de vontade ou coragem política para desarticular tais facções. E aqui é bom registrar que a culpa por esse quadro está longe de ser do Direito Penal ou mesmo do Poder Judiciário, mas é sim do Estado-Administração, o qual é quem tem o poder e o dever para tomar medidas administrativas para coibir esse escárnio nos presídios.

Aprendi que o Estado é o ente mais poderoso da sociedade, devendo todos que o compõem seguir suas regras, mantendo-se, assim, um pacto que permite o convívio em sociedade. Dessa forma, é obvio que nenhuma facção criminosa se manteria de pé – pelo menos não com tanto deboche pelo poder público como fazem atualmente – se houvesse vontade de usar a força estatal para combatê-las.

O fato é que temos uma política criminal de combate ao crime organizado no Ceará de “faz de contas”, e temos que ter coragem para indagar: depois de PCC, CV e GDE qual sigla falta surgir para que o Estado acorde, retome o controle dos presídios, bloqueie a comunicação dos presos com criminosos e sufoque o tráfico de drogas que assola todo o nosso lindo Estado?

Mosaico de Docência – Dr. Prof. Daniel Maia – Redes Sociais, nem um bem, nem um mal: um instrumento.

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Daniel Maia.
Professor Doutor de Direito Penal da UFC.
profdanielmaiaufc@gmail.com.

As redes sociais da internet, além de aproximar pessoas que estão longe e, muitas vezes, afastar momentaneamente quem está ao lado, o que, de logo, mostra o seu caráter dúbio, possibilitaram o aumento vertiginoso da velocidade e da capilaridade da transmissão de informações e dados entre as pessoas. Tem-se que as redes sociais são verdadeiros instrumentos de ampliação do direito fundamental à liberdade de expressão, fato que, de um lado, possibilitou o avanço na efetivação dimensionado direito, mas de outro, ocasionou a maximização das rotas de colisão entre a liberdade de expressão e outros direitos com a mesma natureza de fundamentalidade, especialmente o direito à honra, o direito à imagem, o direito à privacidade e o direito à liberdade religiosa.

Nota-se que, com o aumento do volume de propagação dos pensamentos e informações expressos nas redes sociais, o qual é demasiadamente maior do que a quantidade que se estava acostumado a ter com os meios de comunicação tradicionais, tais como a televisão, o rádio e o jornal impresso, aumentou-se também a possibilidade de que tais manifestações de pensamentos e opiniões violem direitos de terceiros e até mesmo, configurem crimes. Isso faz com que os direitos fundamentais à informação e à própria liberdade de expressão, ampliados com as redes sociais na internet, entrem em conflito mais acentuado com outros Direitos Fundamentais previstos, inclusive, no artigo 5º da Constituição Federal Brasileira de 1988.

Observa-se ainda, o enorme poder das redes sociais em fatos como a Primavera Árabe, em que somente pelo uso desse novo instrumento de comunicação, foi possível a derrubada de Estados ditatoriais, os quais eram governados há décadas, ao arrepio da vontade de seus povos, o que sem dúvida, foi um bem para a democracia.

De outro lado, é também pelas redes sociais que o Estado Islâmico, a AL Qaeda e outras organizações terroristas têm divulgado seus atos criminosos e recrutando novos integrantes para os fins nefastos que possuem.

Dessa forma, como o Estado e o Direito ainda não encontraram um meio termo entre efetivamente controlar e não censurar o conteúdo das redes sociais, cabe a nós esse filtro para decidirmos o que postar ou o que visualizar.

  Enfim, as redes sociais não são um bem ou um mal, mas sim um instrumento contemporâneo que, assim como um bisturi, pode ser usado por todos para o beneficio ou malefício individual ou coletivo, cabendo a nós decidir como queremos usá-las e arcamos com as consequências jurídicas, inclusive criminais, e fáticas dessa decisão.

Mosaico Docente – Prof. Leonardo Robson Pinheiro Sobreira Bezerra

unnamedLeonardo Robson Pinheiro Sobreira Bezerra

Professor Adjunto do Departamento de Saúde Materno Infantil FAMED-UFC

A UFC na história da minha vida.

 Sou professor do Departamento de Saúde Materno Infantil da FAMED-UFC desde junho de 2014. Mesmo sendo ainda tão embrionária minha vida acadêmica docente, tenho na UFC uma longa trajetória pessoal e profissional. Aqui vivi todo o meu curso de graduação em medicina, também segui na Pós-graduação latu senso da Residência médica em Ginecologia e Obstetrícia na MEAC-UFC.

A Universidade Federal do Ceará não pode ser traduzida como uma só. Desde cedo aprendemos a diversidade do Campi Universitário. O Campus do Pici, à época, nos acolhe ao início do curso, mas é no Porangabussu que a Medicina constrói seu ninho. O ambiente urbano deste Campus, entremeado nas casas e comércios do bairro Rodolfo Teófilo de Fortaleza, sempre foi meu lar de formação. Lá formei-me médico, especializei-me em Ginecologia e Obstetrícia e também conheci, namorei e casei com minha esposa, também médica da UFC. Mesmo com todas as dificuldades e limitações das instituições ora sucateadas por governos sem prioridade na educação médica, consolidamos o nosso saber na assistência humanizada e centrada na empatia e atenção ao próximo. Seguindo os grandes mestres.

A carreira acadêmica, a pesquisa científica me seduziram desde o início do curso. Tive a honra de fazer parte do primeiro grupo do PET (Programa Especial de Treinamento) Medicina, sob a supervisão do Prof. Odorico de Moraes e tutoria do saudoso Prof. Ronaldo de Albuquerque Ribeiro. Sob a batuta desses maestros, não havia como traçar um caminho na UFC que não fosse sobre os trilhos da pesquisa fundamental, das evidências científicas e da farmacologia. O prof. Ronaldo nos ensinou mais do que os fundamentos da pesquisa clínica, da farmacologia e da ética; ensinou-nos a alegria de se estar sempre jovem, entre os jovens, ensinando e compartilhando saberes e vivências. Quer seja no laboratório, nas plenárias dos congressos, ou nas rodas de conversa de violão e discussão política. Após terminar a residência médica na MEAC-UFC ingressei sem solução de continuidade na pós-graduação em Ginecologia da UNIFESP-EPM em São Paulo. Não me via ainda tão cedo já clinicando, sem seguir a trajetória docente. Emigrei como muitos médicos contemporâneos meus, à busca de inovar e crescer cientificamente. O Anseio por novas tecnologias, o grande sudeste maravilha. Daí por diante a UFC, o Porangabussu, transformou-se em doce lembrança saudosa, porém raízes que nunca definharam o ideário de retornar. Longos cinco anos se passaram. Após o término do doutorado retornei a Fortaleza onde inevitavelmente ingressei na vida assistencial da medicina. Mas como um instinto, uma força maior busquei (ou fui buscado) às atividades de preceptoria e ensino em saúde. Sempre envolvido com programas de residência médica. Ingressei como GInecologista da secretaria de saúde do estado do Ceará. Iniciou-se a espera de abrirem-se as portas para ingresso como docente na UFC. Longos dez anos se passaram após o término de doutorado. Nesse tempo, a construção do saber agora era diferente. Assistia a um crescente interesse pelo aspecto de avaliar competências e aptidões clínicas e práticas em medicina. Eu havia de me fazer docente do meu tempo, aprender novas tecnologias, metodologias ativas de ensino, aprendizado baseado em problemas, exame clínico orientado estruturado (OSCE). Ingressei na UNIFOR em um programa de graduação de medicina inovador. Foi-me profícua a experiência, de fato corroborando o lema “ensinando e aprendendo”. Um modelo focado em competências e aptidões clínicas. Muito deslumbrado com as novas metodologias para graduação, porém ainda surgia o desejo da pesquisa científica e da Preceptoria. Feliz com  o modelo da UNIFOR, mas distante da minha expectativa de vivência universitária. Lá estive muito próximo da graduação, mas longe da prática assistencial docente e da pesquisa clínica. Como criar raízes e perder minhas características de docente assistencial e pesquisador? Finalmente surgiu a oportunidade de ingressar na UFC. Custou-me abrir mão do contrato com a Secretaria de saúde do Estado e das demais atividades assistenciais. Mas não há realizações sem sacrifícios.

Após três anos de ingresso na Faculdade de Medicina da UFC sinto-me como se nunca estivesse ficado daqui ausente.  O carinhoso acolhimento dos meus professores, agora colegas de departamento, somou, à realização de um sonho e a força para crescer e inovar com a instituição.

A Universidade cresceu. A Maternidade Escola cresceu. A residência médica também. O Hospital hoje é referência em gestação de alto risco, parto humanizado, Uroginecologia, Endometriose, cirurgia ginecológica minimamente invasiva, dentre muitas outras áreas de atenção à saúde da mulher, Hoje o papel do docente de medicina da UFC está há muito além da sala de aula, dos encontros expositivos, das repetidas apresentações em ambientes fechados. Estamos inseridos nessa pujante realidade assistencial. Aprende-se ainda mais em ambientes reais de nossas instituições de assistência à saúde. Outras vivências se sobrepõem. Ainda como docente, mas não só, sempre mais, para além de só ensinar em sala de aula. A diversidade da vivência universitária na Medicina da UFC vai além. Docentes aqui são gestores, empreendedores, inovadores em estratégias de assistência à saúde, supervisores, orientadores de pesquisas clínicas, iniciação científicas, atividades de extensão universitária, médicos e professores de médicos. A docência vive na assistência real, de situações e problemas reais. Acolhendo, diagnosticando, tratando pessoas dentro de seus contextos saúde-doença verdadeiros. Ensinando como médicos, fazendo medicina em ambientes reais. A formação do estudante dentro da realidade assistencial de alto padrão, humana, acolhedora, efetiva. A formação com a pesquisa clínica, com a extensão universitária. Inclui-se aí desde a mais elementar atividade de assistência básica à saúde da mulher, até a cirurgia de mais alta complexidade.

Que universidade é essa que estou? Diferente! Maior! Pujante! Inclusiva! Realística! A docência hoje para além da sala de aula. O docente como personagem ativo da assistência à saúde dentro de instituições que trabalham tecnologias e humanização com o pressuposto científico, acadêmico. A presença do docente nessas redes de assistência/docência/gerência consubstancia a essência do conceito de HOSPITAL UNIVERSITÁRIO. A UNIVERSIDADE multidisciplinar, real, humana e crescente.

Há muita felicidade em fazer parte dessa história.

Mosaico Docente – Dr. Prof. Gilberto Sousa Alves

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Gilberto Sousa Alves
Professor Adjunto de Psiquiatria
Faculdade de Medicina

Suicídio: verdades e mitos

         O termo suicídio deriva do latim sui (próprio) e cidium (matar) e é genericamente compreendido como o ato intencional de matar a si mesmo. O suicídio é um problema de importância crescente na saúde pública, gerando repercussões psicológicas, econômicas e sociais de enorme impacto. A interpretação do suicídio ao longo da história das civilizações tem sido objeto de interesse de diferentes pontos de vista, como o religioso, filosófico e sociológico. Nos primeiros séculos de cristianismo, era interpretada de forma neutra ou mesmo valorizada, embora, algum século mais tarde tenha passado a ser considerado um grave pecado – o suicida não era enterrado com outros cristãos; segundo as tradições do judaísmo, o ato de tirar a própria vida é visto como uma ofensa a Deus e o suicida também é enterrado em uma ala reservada. Foi somente com o movimento iluminista, que o suicídio passou a ser tratado como assunto de saúde. Para se ter uma idéia, somente em 1961 a Inglaterra passou a descriminalizar o suicídio. Ainda hoje, o tema ainda é vista como tabu, inclusive na formação médica, sendo pouco debatido e investigado.

Epidemiologia e impacto econômico do suicídio

         Classicamente, as tentativas de suicídio costumam ser mais frequentes entre mulheres, embora homens tenham cerca de 3 vezes mais o êxito letal, isto é, consigam chegar à morte após um menor número de tentativas – em geral, mais violentas, envolvendo o uso de armas de fogo ou o enforcamento. Dados populacionais de 1998 mostram que 62% dos Homens morrem na primeira tentativa, em oposição à 38% das mulheres.

         Em termos populacionais, observam-se dois picos de aumento nas tentativas de suicídio ao longo da vida. Uma por volta do final da adolescência, entre 18 e 23 anos e a segunda entre a 5a e 6a décadas de vida (ou seja, entre os 40-50 anos de idade). Em cerca de 95% dos casos, o suicídio tem relação com um transtorno mental subjacente, ou seja, uma condição psiquiátrica de base, que atua como um elemento propulsor tanto da ideação como do ato suicida. Estudos mostram inclusive uma maior relação entre suicídio e gravidade do transtorno mental. Estima-se, por exemplo, que nos EUA menos da metade dos indivíduos com depressão faça corretamente o tratamento antidepressivo medicamentoso. Segundo dados de 2002, o suicídio leva a cerca de 870.000 mortes por ano, representando 49% das mortes por causas externas. No Brasil, na faixa etária de 15 a 30 anos, é considerada a segunda maior causa de morte, perdendo apenas para os acidentes automobilísticos.

Suicídio na Sociologia                                                                     

         Entre os estudos clássicos de suicídio está o de Émile Durkheim, cientista político e filósofo francês. Para Durkheim, o suicídio tem relação muito próxima com a constituição das sociedades modernas e com fenômenos como o maior afrouxamento dos laços sociais, as crises econômicas e o individualismo crescente. Curiosamente, algumas das teses de Durkheim tem se confirmado ao longo do tempo. Menores taxas de suicídio são encontradas entre pessoas casadas, com emprego fixo e com alguma religião. Ter laços políticos, esportivos também está relacionado à redução da prevalência de suicídio.

         Do ponto de vista psicológico, diversos aspectos guardam relação com o risco aumentado de suicídio e podem servir como pista para esta condição. Por exemplo, traços de maior impulsividade, agressividade ou sentimentos de desesperança, desamparo ou sofrimento psíquico intenso. Pessoas vivenciando doenças graves, como neoplasias, doença de Alzheimer ou epilepsias podem se tornar mais vulneráveis para o risco de suicídio.

Causas potenciais de suicídio no Brasil

         Segundo dados da literatura médica, as causas mais comuns de suicídio envolvem os transtornos do humor – como a depressão ou o transtorno bipolar, a esquizofrenia e transtornos relacionados, os transtornos da personalidade (emocionalmente instável ou tipo borderline), pacientes em tratamento para condições médicas dolorosas crônicas e pacientes com HIV.

         No exame médico, é importante estar atento ao histórico do paciente. Por exemplo, se há histórico familiar de suicídio ou tentativas de suicídio prévias. É bastante conhecido no meio médico o caso da família Hemingway. Ernest Hemingway, ganhador do premio Nobel de literatura e autor de obras como ‘Por quem os Sinos Dobram’ e ‘O velho e o Mar’, pôs fim à própria vida em 1961, com um tiro de arma de fogo, da mesma forma o pai o fizera décadas antes. Anos mais tarde, uma de suas netas, Margot Hemingway, viria a morrer também por suicídio. Esta sequência de eventos familiares, não raro testemunhada por psiquiatras no dia a dia clínico, aponta para uma provável influencia da genética na ocorrência deste fenômeno.

Genética do suicídio: várias evidência em favor, algumas perguntas ainda sem resposta

         Estudos de hereditariedade mostram, por exemplo, que a concordância para tentativas de suicídios entre gêmeos monozigóticos (isto é, com o mesmo material genético) varia de 12 a 13,4%, em contraposição à prevalência de apenas 2% em gêmeos dizigóticos (isto é, com material genético diferente). Em outro famoso estudo com 62 gêmeos monozigóticos, 6 pares ou aproximadamente 10% deles tentaram suicídio. Cerca de seis genes envolvendo o transporte ou a receptação da serotonina estão envolvidos na maior parte dos casos de suicídio, embora seu papel não seja plenamente conhecido: o TPH, SERT, 5-HT1A, 5-HT1B, 5-HT2A e MAO. Outro estudo de 2003, que seguiu 1037 crianças até os 26 anos, constatou uma maior vulnerabilidade para depressão e suicídio naqueles com gene alelo curto da proteína transportadora de serotonina, sendo os homozigotos para alelos longos os com menor vulnerabilidade aos mesmos eventos, e menor susceptibilidade a eventos estressores.

         Além destas evidências, outros estudos têm apontado uma maior suscetibilidade ao suicídio para pessoas com ativação endócrina (ou hormonal) alterada. Um exemplo é a hiperativação (ou ativação anormal) do chamado mecanismo de luta e fuga, uma reação hormonal em cascata que é ativada sempre em situações de grande estresse e adrenalina. Desde o homem nômade de milhares de anos atrás até hoje, este mecanismo tem importância na liberação da adrenalina corporal e na ativação cardíaca e muscular do organismo, no objetivo de prepará-lo para uma rápida resposta a ameaça do meio. Alguns estudos demonstram um risco até 14 vezes maior para o suicídio em pessoas com maior ativação do eixo hipotálamo hipófise adrenal (HPA), responsável pelo mecanismo de luta e fuga. Obviamente, a interpretação deste dado requer cautela, pois isoladamente não garante e nem exclui o maior risco para o suicídio.

Suicídio e estigma

         Uma das importantes causas de aumento dos casos de suicídio e também de suas repercussões negativas é o fenômeno de estigma. O estigma neste contexto pode ser compreendido como um conjunto de concepções equivocadas a respeito do que é o suicídio, de suas causas potenciais o que pode ser feito para evitá-lo. Para combater o estigma, é muito importante a comunicação clara e aberta dos profissionais de saúde – médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais – com a comunidade. Em muitas ocasiões, o temor do profissional ou da própria família de conversar com o paciente sobre pensamentos de morte, planos de tirar a própria vida ou tentativas prévias de suicídio, sob a justificativa de que falar sobre o assunto estimularia o paciente a pensar a respeito de sua própria morte, é um dos equívocos mais comuns no dia a dia do atendimento. Na realidade, tanto a família como o próprio profissional devem estimular o paciente a expressar seus temores e fantasias a respeito do tema, para que ele (paciente) se sinta encorajado a buscar ajuda sempre que necessário. Um exemplo: um sujeito que deseja tomar medicações para ficar inconsciente e livrar-se de toda a angústia e sofrimento, deve ser ouvido de forma compreensiva e acolhedora. Críticas e julgamentos morais, nestas situações, devem ser sempre evitadas. Por outro lado, é absolutamente indispensável que estas informações sejam repassadas aos profissionais que atendem este paciente, para que todas as medidas protetivas – inclusive o uso de medicações, a avaliação quanto à necessidade de internação hospitalar e outras – sejam implementadas.

Implementando estratégias de prevenção do suicídio

         Em alguns países do mundo, maiores taxas de sucesso no enfrentamento do suicídio têm sido obtidas com a adoção de estratégias mais agressivas. Na Inglaterra, a título de exemplo, um dos eixos da prevenção é o tratamento rápido e eficaz da depressão. Também no Reino Unido, dados de 2013 demonstram que o uso do Lítio – uma medicação frequentemente empregada no transtorno afetivo bipolar – tem se correlacionado a menor taxa de suicídios em jovens com distúrbios do humor. O uso da clozapina, uma medicação empregada em transtornos psicóticos, esteve associada a uma redução de até 25% nas tentativas de suicídio em pacientes com esquizofrenia.

         No Brasil, embora haja a cada ano 100-200 mil tentativas de suicídio e 9 mil pessoas mortas por esta condição, as ações governamentais voltadas à prevenção do suicídio ainda são pouco coordenadas e carecem de evidência científica que sustentem os programas implementados.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), medidas individuais e coletivas são necessárias e algumas podem ser didaticamente citadas:

  • Tratamento dos transtornos mentais de base;
  • Controle da posse de armas de fogo
  • Desintoxicação do gás doméstico
  • Controle do acesso a substâncias tóxicas (crack, maconha, álcool, veneno para rato)
  • Reportagens cuidadosas na imprensa sobre o suicídio
  • Disponibilidade para assistência à saúde física e mental
  • Presença de laços afetivos duradouros com a família e organizações sociais
  • Suporte psicológico e social para indivíduos em risco, por exemplo, pessoas que sofreram violência física ou sexual

Conclusões

         O suicídio é um problema de saúde grave, de importância crescente e com grande repercussão social, psicológica e econômica. Em pelo menos 90% dos casos, pode-se identificar um transtorno psiquiátrico de base, o que nos leva a concluir sobre a necessidade de políticas públicas voltadas para a identificação precoce de pessoas com sofrimento emocional. As ações de saúde devem compreender medidas individuais e coletivas, dentre elas a maior oferta de serviços de saúde mental (ambulatórios específicos para pessoas com ideação ou intenção suicida), a avaliação do risco de suicídio, da gravidade do transtorno mental, das condições de suporte psicológico e social pela família e do grau de acesso do paciente a meios letais (armas de fogo, substâncias tóxicas). Também fazem parte destas medidas o combate ao estigma, através da divulgação na mídia sobre os principais transtornos mentais, suas manifestações mais comuns e as formas de tratamento.

Sugestões de leitura

1. Conselho Federal de Medicina. Cartilha Suicídio: Informando para prevenir. Acesso no link http://www.flip3d.com.br/web/pub/cfm/index9/?numero=14#page/6

2. Botega, N. Suicídio: saindo da sombra em direção a um plano nacional de prevenção. Rev Bras Psiquiatr. 2007;29(1):7-8 .

Mosaico de Docência – Dr. Prof. Ismar Capistrano Costa Filho

Prof-Ismar

A Educação Desde a Comunicação

A escola já não possui, segundo Jésus Martín-Barbero, centralidade nos processos de socialização dos saberes. A educação formal não é a principal referência de conhecimento para jovens e adolescentes que, muitas vezes, aprendem com mais facilidade a partir das informações que circulam na internet, nos jogos eletrônicos, nas séries da TV e nas músicas das rádios. Alguns inclusive passam mais tempo usando estas tecnologias do que na sala de aula.

Esta tese do filósofo hispano-colombiano desenvolvida no livro “A comunicação na educação”, me fez recordar quando coordenava um Grupo de Trabalho de Comunicação e Educação na Conferência Regional da Comunicação do Sertão Central em 2010. Depois de quase intermináveis acusações sobre as deficiências escolares, uma professora tomou a fala e retruncou: “a escola não pode ser vista ou tratada como a culpada ou a soluçãode todos os problemas sociais”. Ela citou um exemplo de uma iniciativa de educação sexual que ela ministrouem sua turma do ensino fundamental. Através de um material didático aparentemente atrativo com uma colorida programação visual e repleto de ilustrações, ela iniciou a aula falando sobre os órgãos genitais e a reprodução sexual. Em pouco tempo, os estudantes, adolescentes do ensino fundamental, começaram a rir. Ela pensou que era uma manifestação da surpreendente novidade. A professora rapidamente questionou o motivo das risadas, mas quem se surpreendeu foi ela com a resposta: “Tia, nós já vimos isso com pessoas de verdade na internet e não com desenhos e bonecos! Hahahahaha!”. A constrangedora situação diminuiu as dúvidas da professora sobreo atual lugar da escola na disputa dos sentidos sociais e do conhecimento.

A situação denominada,por José Luís Braga, no livro “A sociedade enfrenta a midia”, de midiatização demonstra a centralidade que a mídia possui nas sociedades contemporâneas. Os meios de comunicação não são só referência na educação, mas setornaram centrais em quase todas as relações sociais. Os processos de exclusão-inclusão de valores, modos de vida, grupos sociais e saberes são reforçados e consolidados pela comunicação midiática. O debate público sobre as decisões políticas é negado, distorcido ou realizado pelos meios massivos. A vida pessoal é, muitas vezes, organizada em rotinas que necessitam do acesso à internet, da leitura de impressos, da assistência da televisão e-ou da audiência do rádio. Assim, mesmo que não sejam educativos, os meios inevitavelmente educam porque partilham os sentidos sobre a vida social. A questão é qual tipo de educação a mídia promove.

Paulo Freire já, na década de 1960, nos alertava que a educação é uma prática comunicativa que pode ser vertical e autoritária, concentrando a fala e o conhecimento num pólo emissor ou pode ser horizontal, ou democrática, possibilitando a participação ampla na construção coletiva dos saberes. Opondo-se à educação que ele denomina de bancária, o educador propõe assim que esta prática seja o encontro amoroso das pessoas, que mediatizadas pela palavra, possam dialogar, isto é, construama educação pela respeitosa troca de ideias, opiniões, informações e emoções. Este encontro só constrói sentidos horizontais ao relacionar-se com os diversos conhecimentos locais que circulam entre educador e educando, realizando a leitura dos textos a partir dos contextos.

Desta maneira, para possibilitar uma educação emancipadora, os meios de comunicação massivos precisam passar por uma radical e profunda mudança de suas práticas, processos e posturas. Ser uma mídia educativa significa não só inserir temas transversais, como cidadania, saúde e meio ambiente, em sua programação, mas tornar-se uma mídia participativa. Ou seja, a comunicação educativa exige a democratização dos meios que possam ter programação, produção, planejamento e gestão horizontalizados, estando no controle do público e não dos interesses empresarial que promovem predominantemente o consumismo insutentável, a distorção da política e a marginalização das diferenças.

Mesmo com todas as dificuldades, a educação formal pode asumir dois papéis neste processo, que podem colaborar inclusive para o reposicionamento social da escola. O primeiro é a promoção da leitura crítica dos meios de comunicação. Os estudantes não podem restringir seus conhecimentos à aprendizagem da leitura a textos literários e acadêmicos. É fundamental aprender ler a internet, os jornais, a televisão, o cinema… Para isso, é preciso compreender quais os interesses que permeiam a produção, o que foi omitido, as informações priorizadas e distorcidas e quais as consequências sociais. A escola deve também tornar-se um ecosistema de comunicação midiática, como defende o professor da USP, Ismar Soares de Oliveira. A criação de uma rádio, um jornal, blog, redes sociais e vídeos no ambiente escolar possibilitam não só a expressividade dos estudantes, como também repensar as relações entre discentes e docentes, rompendo com a centralidade da fala destes últimos. Além disso, a apropriação dos meios, possibilita os estudantes compreenderem suas competências e entenderem que todos possuímos o direito de comunicar-se. Este processo é denominado por autores como Cristina Matta, Cicília Peruzo e Elfrandy Maldonato de cidadania comunicativa.

Trazer a produção e a discussão da mídia para a educação, deslocaa importância dos meios para a escola. A educação passa a ser ambiente de articulação dos saberes que permeiam os diversos espaços comunicacionais. Acima de tudo, torna-se, sem grandes ambições, um espaço de debate, sobre a reflexividade entre meios e sociedade. Este deslocamento pode empoderar a legitimidade e o papel social da educação e repensar as práticas comunicativas.

Mosaico Docente – Prof. Luiz Drude de Lacerda

Perfil socioeconômico dos bolsistas da FUNCAP no Ceará

Até bem pouco tempo, a educação superior ao nível de Pós-graduação, situava-se no patamar acessível apenas a uma parcela muito pequena da população brasileira, originada em famílias de renda media e elevada, e praticamente em sua totalidade oriundas de escolas privadas particulares, ou no caso de algumas áreas específicas de atuação, de escolas mantidas pelas Forças Armadas. O sistema de vestibular para ingresso nas Universidades funcionava como um primeiro filtro, selecionando apenas aqueles que possuíam tais condições e, portanto, capazes de frequentar escolas e cursos preparatórios, geralmente privados e quase sempre muito caros. Na graduação, a quase inexistência de bolsas de iniciação científica e outros estímulos financeiros, tornava praticamente impossível a dedicação exclusiva dos alunos ao ensino e a pesquisa se não tivessem suporte financeiro familiar. Na pós-graduação, a situação se agravava ainda mais devido à pequena disponibilidade de bolsas de estudo. Um dos aspectos mais nefastos resultantes desta situação era uma tremenda desigualdade social, que se estendia consequentemente a uma notável assimetria regional ao acesso a pós-graduação e, por conseguinte, a geração de conhecimento no Brasil (ver discussão sobre assimetrias em http://www.blogdacasa.ufc.br/mosaico-docente-prof-luiz-drude-de-lacerda-5/).